Deixando a guerra “bem na foto”

E falando em cobertura de guerras…

Lembrei de um livro que recomendo para todos ( se é que já não recomendei)  “Diante da Dor do Outro”, de Susan Sontag. Nele Sontag discute, dentre outras coisas, essa experiência moderna de ser expectador  quase em tempo real das desgraças alheias e o que as imagens podem inspirar.

Discutindo as coberturas fotográficas  de guerras anteriores,  Sontag afirma que, ao que tudo indica, muitas fotos famosas de guerra  foram encenadas. “A casa do atirador de elite rebelde, Gettysburg” sugere um atirador que morreu em casa. Mas na verdade trata-se  do corpo de um soldado que foi deslocado do local onde estava caído para um abrigo . O fotógrafo, Gardner, colocou ainda pra compor  a cena um rifle “cenográfico” simples de infantaria, e não de atirador de elite.

A casa do atirador de elite rebelde - Getttysburg

A foto mais famosa de Robert Capra continua sob suspeita. Há quem diga que é fake “A morte do soldado republicano”, que mostra o momento exato em que um soldado é atingido, numa colina em Córdoba.

A morte do soldado republicano

Outra foto famosa é ” Levantando a Bendeira em Iwo Jima” que chegou a ganhar Prêmio Pulitz para fotografia.  A foto  foi “dirigida” pelo fotógrafo Joe Rosenthal, inspirado em outra foto icônica e tambem encenada para a câmera (soldados do exército vermelho hasteando a bandeira enquanto Berlim queimava).

Levantando a bandeira em Iwo Jima

Soldados do Exército Vermelho levantam a bandeira da União Soviética sobre o estandarte dos nazistas em Berlim, em 1945

Não é o foco de Sontag apontar quais fotos foram encenadas, mas antes discutir como é frustrante saber que não são reais – preferíamos que fosse. (  Por outro lado, não nos incomoda nem um pouco  ver alguns corpos  “photoshopados” . Quem se importa se é fake? Pra fantasia isso é indiferente.  É provável que as fotos de guerra precisem de realismo para funcionar, as fotos dos nossos “sonhos de consumo” não).

E fica ainda a pergunta:  “A câmera é olho da história?” (Brady)

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20 Respostas to “Deixando a guerra “bem na foto””

  1. Darth Pinto Says:

    Pergunta pro Rocco se os americanos foram mesmo à lua…

  2. Ananke Says:

    Rocco, os americanos foram mesmo à Lua?

  3. As pessoas não se importam com fotos que mostram a verdade. Elas querem fotos que corroborem aquilo em que elas já decidiram acreditar. Se tais fotos atendem a esse critério, as pessoas as considerarão boas. Se não atenderem, as fotos serão oportunistas, mal feitas, forjadas, ou qualquer outra coisa. Isso vale não só para fotos, mas para tudo: vídeos, opiniões, argumentos, qualquer coisa.

    Pessoas não acreditam na verdade, nem no óbvio, nem na lógica, nem em opiniões confiáveis, nem no mais provável. Pessoas acreditam no que elas desejam acreditar. Se alguém por acaso quiser acreditar em algo que elenquei acima, como a verdade, então ela irá acreditar na verdade, não porque “verdade” seja um valor superior, mas simplesmente porque foi no que ela optou acreditar. Tudo se reduz a desejo pessoal, embora esse desejo pessoal nem sempre seja uma escolha consciente. Desejos pessoais podem ser induzidos, ou assimilados por condicionamento.

  4. Essa história me lembra vagamente um debate com um amigo outro dia, sobre uma polêmica que teriam achado uma tumba que desmentiria, sem sombra de dúvidas, a suposta ressureição de Jesus. Meu inocente amigo achava que o Cristianismo e a Igreja seriam desacreditados, e que o mundo mudaria drasticamente. Em verdade, nada ia mudar. As pessoas continuariam a acreditar no que desejam acreditar, e quem quisesse nisso acreditar encontraria algum tipo de desculpa para fazê-lo.

    • Darth Pinto Says:

      Hummm… You show superior knowledge, troll…

      Perfeito. O que nos remete à idéia de que para nós a realidade é fruto do que interpretamos, corresponda ou não à Realidade.

      • Ananke Says:

        Ou seja: a “realidade” como algo universal, unificado e regular não existe.

      • Aí entra uma questão de semântica. Se você chama de “realidade” aquilo que é, independente de haver ou não alguém o percebendo, algo que assim seria estivéssemos nós aqui ou não, então tal realidade unificada existe (quer dizer, provavelmente existe. Não tenho como afirmar isso). Se você chama de realidade o modo como as coisas se apresentam para cada pessoa, aí não.

      • Darth Pinto Says:

        Bem, eu encaro como Realidade aquilo que realmente é, independente do que os nossos sentidos traduzam. Ela existe, mas não é necessariamente do modo como a compreendemos.

        Já na Grécia antiga, Sócrates, Platão, Aristóteles, Zico, Éder e Falcão já desconfiavam que nós apenas interpretamos a Realidade através dos nossos sentidos e que o futebol arte não precisava ter sofrido em 82 se o Cerezo não desse um passe de trivela pro Paolo Rossi.

        Imaginem conhecer e entender a Realidade. Seria, como o Rocco gosta de falar, “libertador”…

      • Curioso, e eu que achava que, para o Rocco, o conceito de algo “libertador” envolvia introdução de variados objetos em sua própria cavidade anal.

        Esse lance de conhecer e entender de fato a realidade, sem as armadilhas dos sentidos e principalmente, sem os filtros dos pré-conceitos da mente, se aproximam do conceito budista de Nirvana.

        Buda devia sacar muito da realidade, e isso de alguma forma fez com que ele engordasse, como se vê em qualquer estátua sua da Mundo Verde. Talvez a Realidade nua e crua tenha sido algo deprimente de ser visto.

      • Ananke Says:

        Membros Broken, essa discussão é muito excitante.Mas digamos que eu esteja passando muito tempo sendo obrigada a fazê-la… Desta forma, não quero fazer isso aqui!

        Mas vão nessa que eu tô lendo! rsrsrs

      • Em suma, você achou um saco e quer que a gente se foda, é isso?

    • O pior é que a Realidade propriamente dita nunca vai ser captada por nós. Tudo que podemos ter são as impressões que nossos sentidos têm da realidade, o que é diferente da realidade em si, ou os dados que nossas máquinas nos dão, sendo que nossas máquinas são calibradas por nossos sentidos e projetadas para alimentá-los.

      Até mesmo se sairmos do sensorial, e entrarmos no campo do ideal, qualquer idéia ou argumento não nos atinge de forma “pura”, pois nossa consciência e capacidade de processar informação é moldada por experiências várias, e tudo o que absorvemos é filtrado por isso.

      O fato de nós aqui do Broken, por exemplo, termos capacidade de conversar entre nós de forma inteligível se deve ao fato de termos sido moldados por experiências e vivências similares. Nenhum de nós foi criado em uma vivência totalmente alienígena, como ter sido criado em um mosteiro tibetano isolado, ou dentro de um porão desde o nascimento, sendo estuprado diariamente pelo pai.

  5. PHYODA Says:

    Karai véi! Passa a erva ae…
    Lembrei dos brothers, com quem andei surfando uns tempos… uns tal de sofistas… Mas tb to fora… A propósito, vale uma passadinha no sebo pra ver se acham o “Construção Social da Realidade”…
    Mata a pau!
    Abs.

  6. PHYODA Says:

    Vou catar pra ler… dá pra fazer uma resenha, pra mim?
    Se fodá pra mim quero exclusividade!

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