Futurologia óbvia

O hasteamento das bandeiras do Brasil e do Estado do Rio de Janeiro no alto do teleférico do Morro do Alemão é, sem dúvida, uma imagem emblemática, que nos dá a sensação de presenciar um momento histórico. Resta saber que desdobramentos surgirão daí.

Em um primeiro momento fica bem claro que  muda a relação de forças dentro destas comunidades pacificadas, trazendo para um grau maior de normalidade a vida das pessoas destes lugares. Acontece que, pela lógica, além do policiamento ostensivo elas também poderão contar brevemente com  saneamento básico, coleta de lixo, rede regular de energia elétrica, talvez gás, telefone, entre outros benefícios infraestruturais que caracterizam um bairro de uma cidade como o Rio de Janeiro.

Assim, tendo acesso à cidadania, esses moradores também serão acessados pelo governo que finalmente poderá cobrar pelos serviços prestados. Logo de primeira podemos destacar o fim (num quadro ideal) dos “gatos” da rede elétrica que alimentam as favelas, que são responsáveis pelo desperdício de 20% do total da energia gerada no País, onerando em 5% as contas de luz. Depois tem IPTU, conta de água…

Qual o resultado disso? Poucos vão permanecer morando nas antigas comunidades, agora transformadas em bairros, e farão surgir favelas em outros lugares, a exemplo do que sempre acontece quando o governo desapropria construções irregulares e transfere os moradores para conjuntos habitacionais (onde são obrigados a pagar contas). Querem ter os benefícios, mas sem precisar pagar por eles.

Talvez somente com uma política inflexível contra a criação de novas “comunidades”, como acontece em cidades na Inglaterra em que o governo cria o chamado “cinturão verde” onde é proibido construir, é possível separar o joio do trigo. Certamente existem pessoas nas favelas que pagariam seus impostos se tivessem assegurados seus direitos, mas é óbvio que a grande maioria prefere ter tudo de graça, o que só era possível debaixo da proteção dos traficantes. Também é certo que essa gente vota com o mesmo peso de um contribuinte assíduo, o que faz com que os governos se voltem para o assistencialismo e até prefiram criar bolsões de pobreza e favelas.

Para não pagar contas, os favelados dependiam dos bandidos que hoje estão sendo removidos de suas comunidades, e desta forma não deveriam estar comemorando…

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16 Respostas to “Futurologia óbvia”

  1. Ananke Says:

    O post me fez pensar no que é ou não obvio, ele mesmo dando algumas pistas. Podemos pensar assistir finalmente a reação do bem ( policia, politicos, políticas publicas…) contra o mal ( traficantes, milicias, crime organizado…) com grandes chances do bem triunfar, “pacificando comunidades” e trazendo maior tranquilidade para os cariocas. Ou podemos pensar que o “bem” e o “mal” não estão em lados tão definidos, tampouco se orientam exclusivamente por ética por um lado e interesses economicos e territoriais, por outro ( afirmação tambem obvia…) É compreensivel que cariocas ( que brasileiros em geral) estejam de peito lavado, que sintam essa guerra como “lícita” e necessaria, que o caveirão vire emblema do bem. Mas sinceramete não tenho certeza a serviço do que está esta guerra.

    Enquanto escrevo o Fantastico fala “da ultima noite no compexo do Alemão dominado pelo tráfico” e encerra com uma imagem de uma igreja na Penha, no alto “abençondo a Vila Cruzeiro”, sob a voz de Caetano Veloso cantando que “a gente brasileira quer paz pra trabalhar”…

  2. Rocco Says:

    Visão!

    O quarto parágrafo bastaria em si mesmo, mas Mestre Darth foi mais longe e mais fundo.

    O tema é tão atual e relevante que está sendo discutido por intelectuais nos EUA – sobre outra ótica, mas extremamente similar: A pobreza vicia.

    Aliás, o tema é atual e grave! Gravíssimo! Pois nenhuma nação desenvolveu defesa.

    Parabéns Darth Sith Lord Evil Death Pinto!

  3. Ananke Says:

    By the way: alguem aqui já quis “ter os benefícios, mas sem precisar pagar por eles”?

    • Eu quero isso o tempo todo. Aliás, acho que todos os seres humanos querem isso. A questão é que não há maneira de obter isso que não seja desonesta ou injusta.

    • Darth Pinto Says:

      Exato. Querer ter os benefícios, mas sem precisar pagar. Qualquer um quer, porém alguns compreendem que estes benefícios, para existirem, dependem do trabalho REMUNERADO de outras pessoas, e buscam meios de pagar por eles por acharem isso, no mínimo, justo. Outros simplesmente se recusam a pagar, e viram mendigos, favelados, síndicos ou políticos.

  4. Já repararam nas propagandas da Light nesses últimos dias?

    • Ananke Says:

      Aqui não tem Light…Mas você pode dar um jeito nisso me contando logo o que te chamou a atenção.

      • Darth Pinto Says:

        Desculpe a demora, ando às voltas com uma nefrolitíase daquelas. Coisas do Lado Negro.

        Nos últimos dias a Light tem veiculado uma campanha mostrando os benefícios de ter um fornecimento regular de energia dentro das favelas. Claro que todos serão obrigados a ter conta de luz, mas esta é uma tentativa de preparar os espíritos…

      • Ananke Says:

        Aaah…A coisa tá preta no Lado Negro.

        Quanto às favelas, verão a luz em breve… digo, a conta de luz.

  5. Rocco Says:

    A profecia do Darth adquire contornos reais…

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